O Tramp não conseguiu a credencial do Lollapalooza 2013. Mesmo assim, eu estive lá, não em todos os dias, mas para o que realmente importava: o sábado, 30 de março. Mesmo com muita lama, muito cheiro de estrume, deu para acompanhar ótimos shows. Há muito tempo o Brasil não recebia tantas boas atrações no mesmo dia.

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Toro Y Moi – Divulgação

Toro y Moi

O projeto do produtor Chazwick Bradley, que reúne música eletrônica, rock independente e soul music, abriu a lista dos grandes shows (antes dele,  já haviam tocado e torturado todos os madrugadores que estavam por lá) do dia sem muita expectativa.  Com o som recheado de sintetizadores, era de se esperar que as músicas “se perdessem” ao ar livre. Por sorte, o bom repertório de Bradley sobreviveu à escalação errada de palco e conseguiu animar os poucos que prestaram atenção no palco. Quem deu atenção saiu de lá com vontade de conhecer mais do swing do trabalho do americano. Foi uma apresentação digna de um dos melhores  alunos recentes da escola de Motown (gravadora onde Marvin Gaye, Jackson 5 e Stevie Wonder aprenderam tudo sobre grooves e desenvoltura em cima do palco).

Nota: 7/10

Gary Clark Jr. - Divulgação

Gary Clark Jr. – Divulgação

Gary Clark Jr.

Do local onde eu vi, encostado numa grade, cercado por lama movediça e casais pegajosos, parecia que a plateia não reagia bem aos solos de guitarra do artista norte-americano. Nem mesmo “Satisfaction”, dos Stones, conseguiu fazer com que o público se empolgasse, o que, aparentemente, obrigou o artista abortar a música incidental no refrão. Sem conseguir enxergar direito, o que eu ouvi foi uma banda afiada, servindo de base para solos cheios de fellings. Infelizmente, nem mesmo a lindíssima balada “Please Come Home” fez com que os pombinhos que estavam ao meu lado ficarem de frente para o palco. Se mais pessoas presentes tivessem ouvido o seu último disco, o bom Blak and Blu, o show teria certamente tido a recepção que merecia.

Nota: 7,5/10

Two Door Cinema Club

Um dos maiores representantes do que eu chamo de “indie gay” foi muito bem recebido por sua base de fãs, um misto de moçoilos descamisados e saltitantes e meninas muito bonitas da faixa de idade dos 15 aos 20 anos. Para quem gosta, não deve ter sido um mau show. Eu fugi na terceira música.

Sem nota

Alabama Shakes

Chame-a de diva, musa, o que for. Elogie Brittany Howard como quiser. O grande destaque individual do segundo dia conseguiu até compensar o desânimo do guitarrista Heath Fogg e do baixista Zac Cockrell em uma apresentação que foi só dela. Além da voz, obviamente acima da média, Brittany se sobressaiu graças à interpretação de fossa  músicas menos famosas do disco Boy and Girls, como “Be Mine”, e o improviso vocal nas notas mais difíceis de “Hang Loose” e “I Found You”. Com mais estrada, ficou claro que o Alabama Shakes irá ganhar cada vez mais espaço no mainstream. Brittnay Howard já está pronta.

Nota: 8,5/10

Criolo

Já deu para perceber que nem ele aguenta mais cantar as mesmas músicas. Até o discurso messiânico, cada vez menos convincente, é o de sempre. Criolo precisa urgentemente de um novo disco.

Sem nota

Queens of the Stone Age - Divulgação

Queens of the Stone Age – Divulgação

Queens of the Stone Age

O Queens of the Stone Age, como toda grande banda, já entra no palco com metade do jogo ganho. O público, que trata Josh Humme como uma espécie de divindade, chega a disposto a delirar. Eles sabem que, seja em estúdio ou ao vivo, com membros novos ou antigos, o QOTSA nunca decepciona. Ou melhor, Humme. Um show que não sente falta de um hit do tamanho de “Feel Good Hit of the Summer” (que poderia entrar facilmente no lugar da chata “Make It Wit Chu”) não é comum. Quem estava naquele meio, torcendo para não morrer em um bate-cabeça, entendeu todos os motivos para reverenciar o sujeito mais relevante da música nos últimos anos.

Nota: 10/10

The Black Keys - Divulgação

The Black Keys – Divulgação

The Black Keys

Para mim, com um som melhor, o Black Keys teria feito um show tão impecável quanto o do QOSTA. Pesaram muito o volume baixo e a falta da paciência dos fãs de ocasião que pareciam ter ido só para ouvir “Lonely Boy”. A dupla fez a sua parte e mostrou que merece, sim, todo o hype tanto pela quantidade de hits (nenhuma banda da mesma idade tem tantos sucessos quanto eles – nem mesmo o ‘rival’ White Stripes) quanto pelos riffs e solos cantáveis, ainda melhores em coro. Uma pena que a questão técnica tenha impedido que todos captassem o quão boa foi a apresentação. Ainda mais triste é o festival de comentários oportunistas que surgiu depois do show, de uma gangue de tênis brancos que parece ter tanto nojo do mainstream quanto da lama. A eles, eu recomendo o show do Black Keys no Reading Festival. E um paninho úmido.

Nota: 9/10