André Prando (Crédito: divulgação)

O André Prando já é de casa. Em 2016 participou da coletânea No Abismo da Alma, produzida pelo Tramp, e este ano também falamos dele por aqui, a respeito de sua empreitada ao abrir um projeto de financiamento coletivo para produção de seu próximo disco de inéditas, Voador. Pois bem, o cara bateu a meta em mais de 100% na campanha, lançou single-clipe mês passado – da faixa “Ode à Nudez”, veja abaixo – e esta semana divulgou mais uma canção, “Eu vi num transe”, com participação especial do guitarrista Lucas Estrela – ouça abaixo também.

Ainda neste mês, Prando confirma a estreia completa de Voador, no próximo dia 23 de Novembro, com um show no Rio de Janeiro. Com tanta coisa rolando, a Tramp acabou se empolgando e antecipou uma conversa com o artista capixaba, antes mesmo do novo trabalho ser lançado.

E adivinha? Deu ainda mais vontade conferir o que está vindo por aí! Leia o papo exclusivo que tivemos com o André Prando a seguir e aguarde para voar ainda mais alto nas próximas semanas.

Bom, o timing para essa canção não poderia ter caído melhor, ainda que estejamos num momento bem difícil no Brasil. Uma tensão no ar, um clima de ódio latente e você anuncia seu novo trabalho com uma letra que fala sobre o cair das máscaras. Como você sente “Ode à Nudez” em relação à política brasileira atual? A letra é um reflexo direto desse momento ou é uma dessas tantas coincidências entre a arte e a vida real?

AP: Convido-os a acompanharem a seguinte analogia: no universo de “Ode à Nudez” meu personagem com barba e sem barba coexistem e em determinado momento eles se encontram, simbolizando uma compreensão dos diferentes ‘eus’ que possuímos. A barba é um símbolo da máscara, certo? Essa ideia de tirar a barba para ilustrar o desmascarar foi o mote inicial do videoclipe, a partir disso elaboramos o roteiro para que a surpresa acontecesse sem que parecesse um susto, sem que parecesse um truque barato, mas que fosse de difícil sutil, que convidasse as pessoas para dentro desse universo e percebessem de forma envolvente. Foi difícil imaginar como faríamos isso, mas a verdade é que o contraste brusco do mascarado e o desmascarado é tão inesperado, que fica difícil captar ou acreditar. Felizmente nossa proposta tem funcionado e muitas pessoas não percebem na primeira assistida que o personagem sem barba sou eu mesmo. Ou percebem só no final e ao rever, percebem que eu estou ali desde a primeira cena, em meio à todo mundo. Um lance meio Clube da Luta.

O cenário político-social que vivemos hoje passa por uma situação parecida. O personagem, recém-eleito, passa uma imagem de pseudo-cidadão de bem a favor da família, moral e bons costumes e, sem disfarçar nem um pouco, coexiste sua faceta mais verdadeira que é intolerante, autoritário e prega o ódio de forma mais clara possível. Quando a máscara e a realidade são muito contrastantes, mesmo o olhar mais próximo e claro possível não deixa o discernimento ligar as duas coisas. As pessoas se recusam a enxergar o que está diante dos olhos, deixam passar batido. Parece que o expectador se habituou a usar uma máscara cega pra tal situação. Acho lindo como no videoclipe pudemos apresentar o tema de forma misteriosa, leve e afetiva. Essa é uma reflexão que cabe perfeitamente no universo “Ode à Nudez”, mas a temática do ego, cair das máscaras, desconstrução e desmistificar que proponho na música é um tema abrangente que, em momento algum, quis limitar à um discurso apenas. Quanto mais a pessoa puder viajar e chegar em algum lugar, melhor. Só quero ser o motorista, não quero colocar a placa do destino final.

Em que sentido você acredita que “Ode à Nudez” antecipa o que ouviremos em Voador?

AP: Talvez essa seja a música “mais banda” do Voador. O disco tem diferentes momentos, começando com “Ode à Nudez” que abre ala com a faceta mais rock e uma pitadinha de doideira. Ela sintetiza o disco de forma pop, sem perder a qualidade de rock-canção-experimental em 3 minutos – curiosamente a música mais curta do disco. Depois o disco apresenta um clima mais imersivo e psicodélico, com sitar, acordeon, violoncelo, percussões, que vai te levando aos poucos para outros lugares. – essa faceta mais plural já é apresentada no segundo single “Eu vi num transe”, que foi lançada no dia 02/11. Isso tudo costurado por letras que discutem temas do nosso tempo e nos leva a refletir. O cenário caótico que vivemos tá muito presente no álbum e “Ode à Nudez” mostra, com afeto, um olhar mais externalizado e menos egoico, uma nudez de máscaras, uma disposição para compreender outros ‘eus’, uma desconstrução de mitos.

Sentimos uma referência forte em Alceu e Raulzito. Esses nomes tão dentro do balaio de inspirações do novo disco?

AP: Sim e talvez mais do que antes. São artistas que já tenho bastante internalizado em mim e são inspirações sim, principalmente na forma de compor e expor os assuntos. Acho que sonoramente as inspirações pra esse disco tão mais pra Clube da Esquina e John Frusciante.

Voador tem produção de Jr. Tostoi e de Henrique Paoli, que é também seu baterista. Como se deram essas trocas entre músicos/produtores de gerações e até mesmo estilos diferentes?

AP: A primeira coisa que gostaria de destacar nessa experiência foi a forma humilde e respeitosa como tudo aconteceu. Nós, como fãs do trabalho do Tostoi, ficamos extremamente felizes  em ouvir dele que os arranjos que criamos chegaram soando prontos aos seus ouvidos e que a forma como organizamos e propomos as músicas era muito coesa. Os arranjos foram criados por mim e Henrique Paoli, uma fase em que ele já exerceu fodamente o papel de produtor ao organizar as ideias de arranjo que eu apresentei e criar muitos outros caminhos e soluções. Gosto muito da forma como a gente se entende bem nas criações.

HP: Desde 2016 que que vínhamos fazendo e pensando as músicas. O que fez com que quando o Tostoi entrou no processo já existisse uma maturação de ideias, uma cara no trabalho. O como ele entendeu a dinâmica e acreditou naquela cara foi de uma sensibilidade e sagacidade incrível. Isso deu confiança pra darmos o nosso melhor no trabalho e pra que ele tivesse toda abertura pra somar a sonoridade dele, principalmente na ‘cor’ da captação e mixagem. O lance de irmos pro Rio, ficarmos a maior parte do tempo dentro do estúdio, convivendo quase 24h foi importante pra uma conexão musical e pessoal de todos os envolvidos.

Disco novo sai esse ano ainda, certo? Te veremos ao vivo com as novas músicas em 2018 também? Se sim, onde e quando?

AP: O Voador completo, será lançado nas plataformas digitais no dia 23/11, com distribuição da Sony e selo Novíssima Música Brasileira. Pra esse ano temos show de lançamento em Rio de Janeiro (Teatro Ipanema, 23/11), São Paulo (Noite SIM SP, 07/12) e Vitória/ES (Sesc Glória, 11/12). Já estamos ansiosos para montar essa turnê voadora para 2019. Aceitamos convites!

SERVIÇOS

Show de lançamento Voador no Rio de Janeiro
Data: sexta-feira, 23 de Novembro de 2018
Horário: 21h
Local: Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824
Ingressos: valores a confirmar aqui

Show de lançamento Voador em São Paulo
Data: sexta-feira, 7 de Dezembro de 2018
Horário: 20h
Local: Fau-haus – Rua Faustolo, 983
Ingressos: R$ 15