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Na 27ª entrevista da série, o Tramp trocou uma ideia pesada com Roberto de Melo Santos, em arte Di Melo, cantor e compositor pernambucano, que chegou em São Paulo no fim dos anos 60, quando começou a tocar na noite paulistana e só em 1975 teve suas músicas lançadas pela EMI-Odeon, no disco que leva seu nome, e conta com as participações de Hermeto Pascoal e de Heraldo do Monte, além de trazer canções de sucesso, como “Kilariô”, “A Vida em Seus Métodos Diz Calma” e “Se o Mundo Acabasse em Mel”

Com 10 CDs prontos e em plena atividade física, mental e orgânica, Di Melo foi também objeto do documentário Di Melo: O Imorrível, de Alan Oliveira e Rubens Pássaro, e chegou a fazer uma participação especial no clipe de “Don’t Stop the Party”, do Black Eyed Peas. Confira:

Quando aconteceu o seu primeiro contato com a música?
DM: Já nasci assim gostando curtindo, vivenciando me ramificando, bebendo na fonte das várias artes, ou seja, teatro, música pintura, entalhe e, nos termos de composição, sempre gostei de violões e suas formas, acho que nasci boêmio. Meu pai tocava violão e minha mãe era uma exímia cantora, tinha um gosto musical incrível, possuidora de uma voz maviosa afinadíssima e cantava todas as muitas canções da sua época. Daí fui me habituando desde cedo a ter bom gosto musical e senso apurado, o que me agrada muito, por ser de bom grado, o que cativa.

Se você não fosse cantor, o que seria?
DM: Aviador, adoro aviões. Sou um grande aventureiro,voo no ar, na terra, no mar por onde der irei plainar. Tanto que tenho um compilado intitulado Bicho Voador em tudo que faço há muito carinho, predisposição, amor, emoção e também tesão. Quando trata-se de avião vou por aproximação, porém tudo que se toca, deixa e leva um pouco, também se assim não fosse, seria um eterno absurdo.

Compor para você é?
DM: É tudo, pois faço tudo do nada. Começa um garatujo que vai criando formas, entre linhas, povoações, diversificações, mas sempre mar, terra, ar e muito amor tem que constar. Mulher bonita, sensível e sensual sempre me inspira muito. Eu costumo dizer que pessoas sensíveis sempre emocionam e fascinam e que o gostar não se explica simplesmente se aplica.

Você tem algum ritual, passo-a-passo, método, etc, para compor suas canções?
DM: Tudo surge momentaneamente, independe de mágoa, melancolia, dor e sofrimento para a inspiração, nunca premedito absolutamente nada, mas quando surge eu elaboro. É uma dadiva divinal. Sou um ser extremamente amórico, mas muito depende de sensibilidade, afinidade e aptidão. São coisas que permeiam a alma, a mente e o coração por exatidão.

Se você pudesse ser algum outro músico, quem você gostaria de ser?
DM: Nunca pensei nisso, porque sempre fui eu mesmo, continuarei e prosseguirei sendo o próprio. Em outras palavras, eu me amo e continuo apaixonado pela a minha pessoa, mas muito admiro o Chico Buarque, Baden, Gonzaguinha, Vinícius de Moraes, Milton Nascimento, Gonzagão, Jackson do Pandeiro, Egberto Gismonti, Elis Regina, Geraldo Vandré, Jorge Ben e muitos outros. O Brasil possui uma gama frequente de muita gente fazendo coisa boa em todos os segmentos. Esse é o lado bom, compensatório e não existe meio termo, mas tem também muita coisa imprestável e descartável.

Uma música que você queria ter escrito?
DM: “Última Forma”, do Baden Powell, essa música eu gostaria de ter feito. ‘É, como eu falei não ia durar, eu bem que avisei, pois é, vai desmoronar. Hoje ou amanhã um vai se curvar e graças a Deus, não vai ser eu quem vai mudar, você perdeu’. Ou a música “Simplesmente”, do Paulinho Nogueira.

Quais são suas principais referências?
DM: Minhas principais referências e preferências? Sempre prismo por tudo o que há de melhor musicalmente, nacional e internacionalmente. Ouço tudo e gosto de tudo o que é bom, posso ainda não ter, mas um dia chego lá!

Qual o seu disco nacional preferido?
DM: São vários… Adoro música boa e de qualidade. Tenho discos e livros que mesmo que tivesse outras vidas não sobraria espaço-tempo para ler e ouvir tudo.

E o internacional?
DM: Jimi Hendrix. Adoro também música clássica é uma limpeza na mente e no astral, uma coisa extra-sensorial. Barry White, Sam Cooke, Charles Aznavour,  Ray Charles, Tony Bennett, Frank Sinatra e Paul Anka.

Para você o que a MPB representa?
DM: É tudo, o vinho, o trigo e o pão! É coisa do coração, minha própria alimentação, eu comungo com isso. Aliás, não saberia viver sem isso sistematicamente, há uma automação & sintomatização corre nas veias como o próprio sangue e haja pulsação.

O que os fãs do Imorrível podem esperar no futuro?
DM: Do passado, no presente, para o futuro, tenho dois livros compilados, “A Mini Crônica da Mulher Instrumento” e o “Bicho Voador”, tenho 12 músicas inéditas com o Geraldo Vandré, uma com o Jair Rodrigues, uma com Baden Powel, uma com o Wando, uma com Emicida, várias com Waldir da Fonseca e umas 400 de minha autoria. Eu comigo mesmo. E tenho minha obra de arte principal, Gabi Di Abade, com oito aninhos, cantando e distribuindo simpatia, para o mundo nas emissoras brasileiras. Aproveitando o ensejo, quero agradecer aos jovens de todas as idades, de todos os lugares que aderiram ao meu som, aos DJs do mundo todo que colocaram os vários sons nas pistas, ao público em geral que tem me apoiado e dado força para prosseguir, a todos os companheiros que direta ou indiretamente têm me ajudado e incentivado a levar adiante de forma, irredutível esse meu trabalho, aceitando a minha forma de ser, de batalhar, de me expressar, enfim de me fazer entender. Meus sinceros agradecimentos a Dona Jô Abade, produtores, pessoal do som, iluminadores, jornalistas, pintores, apicultores, floristas e tudo que agrada os meus amores, sonhos e pendores… Quantos louvores. Grato Tramp!

Tramp entrevista é uma série de conversas com os principais nomes da música nacional, onde os mais diferentes artistas respondem sempre as mesmas perguntas sobre música, composição e vida.