Facção Caipira (Crédito: Camila Padilha)

A mistura da Facção Caipira é dessas difíceis de explicar. Dando play no álbum debute, Homem Bom, de 2015, ou no single recém-lançado, “Vaidade”, a composição sonora faz o ouvinte brincar de seguir pistas, decifrando nas camadas as diversas referências ali contidas, como stoner rock, brega, marchinhas, bluegrass, country… de tudo um pouco. Com isso, a Facção Caipira vai reforçando sua sonoridade própria, que mesmo aludindo a uma essência interiorana, vem mesmo é das praias quentes de Niterói (RJ).

Com campanha de financiamento coletivo no ar, a banda está numa nova fase e formação. Agora um trio – Jan Santoro (voz e guitarra), Vinicius Câmara (contrabaixo) e Renan Carriço (bateria) -, o Facção Caipira se organiza para produção de Do Lugar Onde Estou Já Fui Embora, próximo álbum de inéditas, que será produzido por Felipe Rodarte no clássico estúdio Toca do Bandido.

Numa entrevista exclusiva pro Tramp, o vocalista Jan Santoro troca uma ideia sobre o atual momento do grupo, próximos passos e outras ideias mais. Dá play no single e curte o papo abaixo:

A campanha de vocês apresenta uma sinceridade muito natural, que às vezes outros grupos e artistas optam por omitir na hora de uma divulgação como essa. Vocês tratam do assalto que a banda sofreu, citam a saída de um integrante, tudo de modo muito saudável. Esse é também um jeito da banda ser/tocar as coisas no dia a dia ou foi uma escolha apenas para a campanha em específico?

FC: Sim, optamos por contar dessa maneira, nua e crua, porque o disco carrega uma emoção forte sobre muito do que vivemos nesses dois últimos anos morando juntos aqui em Niterói. Construímos um estúdio na casa para compor, pensamos no que seria da nossa carreira, teve a saída do Daniel que é um querido, grande músico, esteve com a gente durante todo ciclo do Homem Bom, somos muito gratos por isso. Hoje ele está envolvido em outros projetos, lançou uma música chamada “Passa Tempo” no canal dele e participou do lançamento de “Oxalá”, do Hariel Medella (com part. André Borges), outro grande compositor de Niterói. Então após esses eventos pensamos no que faríamos sem instrumentos e pouca opção. Mas tudo foi se ajeitando, com muita ajuda (guitarra, pedais e coisas emprestadas de nossos amigos). Muito apoio, isso tem que ser falado. Então optamos por levar assim, no amor, tanto a campanha e o disco, ambos são projetos muito sinceros com o que estamos vivendo.

Em que sentido vocês sentem que “Vaidade” representa este momento da Facção Caipira? Por que ela foi a escolhida pra ser o primeiro single, de um projeto inédito, que traz uma campanha a tiracolo e também uma nova fase da banda? Acham que a música ajuda a traduzir esse momento?

J: Identificamos em “Vaidade” uma mensagem de força, de levantar a cabeça, perdoar o passado e seguir em frente, sonhando alto e acredito sim, que muito se correlaciona com o que estamos vivendo agora com essa campanha. Não só traduz no campo semântico, mas a musicalidade também expressa uma abertura muito maior com relação a outros estilos musicais, não somente o blues-rock (que está sempre na mão), estamos flertando muito mais com ritmos brasileiros, agregando nosso som com outras texturas (órgãos, coro, sopros, tem muita coisa pra vir aí!) sem largar mão da guitarra com fuzz, oitavadores e os amplificadores no talo.

O que a Facção Caipira tem ouvido atualmente?

J: Eu tenho escutado muita música brasileira, brega… Altemar Dutra, Lupicínio Rodrigues, O Terno, Bixiga 70, Arctic Monkeys, João Capdeville, Carne Doce, Otto, Dominguinhos, Elba Ramalho, entre outros.

V: Eu tenho ouvido muito punk rock roots, como Charged Gbh, Cockney Rejects, Discharged e Black Flag, além dos clássicos de sempre… Beatles, Beach Boys e Clube da Esquina. Também tô ouvido muito disco e funk.

R: Eu tô escutando muito as bandas de afrobreat em geral, O Terno sempre tá na minha playlist. Busco sempre coisas brasileiras, nessa conheci Marrakesh e Baco Exú do Blues, que gostei muito. Tô viciado em Jorja Smith e curto muito a textura do Villains (álbum do QOTSA). Mas é muito injusto limitar só a esses artistas porque todo dia eu descubro uma coisa nova.

Quais serão os caminhos sonoros da banda neste próximo álbum? O que terá de diferente de Homem Bom?

R: Homem Bom cumpre bem o que a gente buscava na época, que era soar como uma banda ao vivo ou o mais perto disso. Já em Do Lugar de Onde Estou Já Fui Embora a gente não quis se limitar ao Power Trio e nos shows a gente se vira. Queremos colocar o que vier na nossa cabeça e o que a gente achar que a música pede. Seja o que for. Então vamos ter teclas, sopros, cordas, coros e tudo mais o que vier na nossa cabeça… o céu é o limite, hahahaha! Temos muito mais possibilidades depois que a gaita não tá mais presente, pois sempre tínhamos que dar espaço para ela ter o destaque merecido e falando de timbres Jan explora muito mais as possibilidades agora que não utiliza mais o Ressonator e tem toda uma gama de texturas novas, usando diferentes guitarras e amplificadores. No Homem Bom (2015) é praticamente o som de Dobro o disco inteiro. Sem falar na maturidade musical e nas inúmeras bandas que assistimos, tanto em festivais que tocamos, quanto em shows que costumamos frequentar bastante. Isso fatalmente mexe com sua percepção de timbres , texturas e dinâmicas.