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Crédito: Everton Funghi

Na 35ª entrevista da série, o Tramp conversou o cantor e compositor mineiro Thales Silva. Conhecido por ser integrante da banda A Fase Rosa, o músico lançou em maio de 2014 o seu projeto solo intitulado Minimalista, álbum que transita por diferentes formas assumidas na chancela da MPB e suas variantes mais clássicas, como a bossa, o baião e o samba, com texturas do indie rock e da cultura pop mundial.

A produção do disco foi realizada pelo próprio músico, tendo co-produção de Thiago Corrêa, Rodrigo Magalhães, mixagem e co-produção de Henrique Matheus. Thiago Corrêa também participou cantando na faixa “Coisa Linda” e Henrique Matheus gravou os acordes de guitarra em “O Grande Espelho”. Além das já citadas, destaque também para “Saudade” e “Boniteza, Belezura”. Ouça abaixo esse ótimo trabalho e leia a entrevista completa:

Quando aconteceu o seu primeiro contato com a música?
TS: Não lembro exatamente o primeiro, mas lembro das manhãs de domingo, quando era acordado pelos discos do meu pai soando alto. Ele sempre ouvia Pink Floyd, John Coltrane, um do George Harrison ao vivo e em especial o Robert Cray.

Se você não fosse músico, o que seria?
TS: Gostaria de ser geógrafo humano ou sociólogo.

Compor para você é?
TS: É o que faço. É o que necessito. Não planejo, nem me organizo para compor. Basta eu ter um momento de ócio após os momentos agitados que eu já começo a brincar com palavras, melodias e harmonias. É o meu processo de catarse, de reflexão e exposição dos sentimentos mais profundos aos rasos.

Você tem algum ritual, passo-a-passo, método, etc, para compor suas canções?
TS: De modo algum. Não é que eu seja aleatório nesse processo. Mas como disse, não componho por responsabilidade. Pelo menos quase nunca.

Se você pudesse ser algum outro músico, quem você gostaria de ser?
TS: Eu admiro as músicas e a carreira de diversos artistas, pelo sucesso, significado e significância deles. Mas eu não gostaria de ser uma outra pessoa. Em todo caso admiro o que um Bob Dylan realizou, os Beatles, Nina Simone, Caetano Veloso, até mesmo os companheiros em início de carreira que já conseguem coisas legais como o Cícero, Do Amor e Apanhador Só.

Uma música que você queria ter escrito?
TS: “Angelitos Negros”. Conheço cantada por Pedro Infante, mas sei que não é dele. É a adaptação de um poeta venezuelano ao que me parece. Gostaria de ter feito diversas outras pelas quais eu tenho um tesão e emoção profundos ao escutar, como “Terra”, do Caetano; “Eleanor Rigby”, do Paul McCartney; “Menina Amanhã de Manhã”, do Tom Zé; e “Strange Fruit” do jornalista judeu-americano de quem não recordo o nome agora (Abel Meeropol). Mas essa “Angelitos Negros” é de uma clarividência, de uma atemporalidade. O cara escrever, e posteriormente outros cantarem algo dessa importância, a tanto tempo. São temas que hoje em dia existem muitos sem entender. E ali, o cara já falava disso. Estamos falando sobre cotas, em modo de poesia. Há quase 70/80 anos atrás.

Quais são suas principais referências?
TS: Gosto especialmente da música brasileira em sua infinita variedade. João Gilberto, Gal, Caetano, Djavan, Tom Zé, Jards, Gil… e gosto das cantores emotivos do jazz americano, sobretudo Nina Simone e recentemente descobri a fundo o Chet Baker, cantando. Gosto também da inquietude do rock. Único estilo musical pautado mais no espírito do que nas regras. Portanto, sempre atual.

Qual o seu disco nacional preferido?
TS: Não saberia dizer. Pra não ser tão saudoso eu acho o Noites do Norte, do Caetano, uma das não tantas obras-primas da música nacional depois dos anos 2000.

E o internacional?
TS: Também não saberia dizer. Os discos do grunge me marcaram de modo afetivo, mas o que mais me acompanhou nos diversos períodos de mudança, de gosto e de atitude, o menos intermitente, digamos, foi o Duke Ellington & John Coltrane, de 1963. Lembro-me de sempre ouvi-lo, da adolescência deslumbrada e rockeira até os momentos mais cafonas atuais, risos.

Para você o que a MPB representa?
TS: A MPB é tudo. Acho que é o maior tesouro que esse país pôde nos dar, apesar de tão conservador, tão policial, tão machista e tão direitoso, ao menos por tantas décadas. Na verdade é muito provável que esse tesouro tenha sido resposta a isso tudo.

O que os fãs do Thales Silva podem esperar no futuro?
TS: Eu não tenho fãs. Acredito que tenha pessoas que admiram meu trabalho, ou mais que tudo concordam e compactuam com minha proposta artística. Acho que essas pessoas que acompanham o que eu faço podem esperar por novas tentativas, coragem, mudança e pouquíssima acomodação.

Tramp entrevista é uma série de conversas com os principais nomes da música nacional, onde os mais diferentes artistas respondem sempre as mesmas perguntas sobre música, composição e vida.