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Crédito: Juliana Lombardi

Na 33ª entrevista da série, o Tramp conversou com o cantor e compositor Tibério Azul. Nascido e criado em Recife, ele montou projetos musicais, bandas, lançou discos, blog e partiu pelo Brasil realizando shows, formando público, admiradores e amigos. Tibério também fundou a banda lítero-muscial Mula Manca & a Fabulosa Figura lançando dois discos, e a famosa Banda Seu Chico, ainda em atividade que visa reinterpretar ao vivo as composições de Chico Buarque sob nova roupagem.

No final de 2011 nasceu o seu primeiro disco solo Bandarra, ou o caminho que vai dar no Sol, trabalho que mescla a boa e velha MPB com o rock e o regionalismo. Sob o aporte de ótimos arranjos e doces versos, o disco transporta o ouvinte para algum lugar no final dos anos 70 em músicas já conhecidas, como “Veja Só” e “Vamos Ficar Sol”. Ouça e leia o nosso bate papo:

Quando aconteceu o seu primeiro contato com a música?
TA: Aos 15 anos encontrei um violão velho com duas cordas guardado nos fundos do apartamento como relíquia do meu falecido padrasto. Foi um momento único e especial, sem lógica ou sentido. Levei para o meu quarto, abracei-me com ele e passava horas a fio cantarolando qualquer coisa envolvido num encanto extremo. Um dia minha mãe bate na porta e passando o pedido dos meus irmãos sentencia “pelo menos aprenda a tocar” e me entrega uma daquelas revistas de violão que vendia em bancas. Esse foi a forma como cai no colo da profissão de músico. Digo isso porque falar do meu contato com a música é antigo e orgânico. Todo pernambucano convive em seu cotidiano com a canção desde novo. Comigo não foi diferente. Agora, se você me perguntar quando foi o meu contato com a arte e a poesia, aí sim te direi que com certeza foi antes do que eu tenho razão, antes do meu nascimento nesse espaço físico.

Se você não fosse músico, o que seria?
TA: Cantor é uma das funções que eu desempenho. Cantor, compositor, letrista, músico, escritor, etc. Funções mudam, oscilam com o tempo. Não tenho tanto apego as funções, poderia ser qualquer outra coisa. Meu apego é com a minha função no mundo. Minha função é poética, é fazer poesia. Um poeta é um mágico que promove encantos. Hoje eu sou um poeta cantor, mas poderia ser um poeta escritor, um poeta jornalista, um poeta advogado.

Compor para você é?
TA: Abrir caminho, permitir e anular-se. Compor é criar espaço para algo maior nascer. Compor é eliminar o ruído entre a alma e o corpo.

Você tem algum ritual, passo-a-passo, método, etc, para compor suas canções?
TA: Tenho uma rotina talvez, método não. Em momentos de criação busco o máximo de silêncio dentro de mim e passo a observar com extrema atenção tudo ao meu redor, por dentro e por fora. Vou percebendo lentamente as melodias que desenham no ar e as palavras e sílabas que as acompanham. Quando não resta qualquer dúvida em mim sobre uma canção, coloco tudo na tela do computador e aí passo para um momento mais técnico onde passo um tempo incrível polindo, rescrevendo, invertendo a ordem, retirando e acrescentando sílabas até que meus olhos brilhem, como quando vemos pela primeira vez um grande amor.

Se você pudesse ser algum outro músico, quem você gostaria de ser?
TA: Me considero um músico mediano. Bem mediano na verdade. Por isso se pudesse gostaria de ter a habilidade de diversos músicos. Mas se fosse pra escolher só um, gostaria de ter a sensatez musical de Vítor Araújo, assim como a paciência e a dedicação que ele sem qualquer esforço vivência cotidianamente.

Uma música que você queria ter escrito?
TA: Tantas, existem tantas músicas encantadoras no mundo. “Reconvexo” de Caetano Veloso, “Construção” de Chico Buarque e “Gita” de Raul Seixas com Paulo Coelho.

Quais são suas principais referências?
TA: A vida, o mundo ao meu redor, eu mesmo. Minha inspiração não é linear nem burocrática, procuro inspiração de uma forma circular. Rilke, Chico Buarque, cuscuz com leite de côco, Caetano, Bethania, carne de charque, inhame, um abraço sincero, um amor que se amplia, Manoel de Barros, o silêncio sincero, um barulho lúcido, família, a dor da perda, o sexo, Cora Coralina, Gil, Beatles, minha mulher, minha filha, a cor marrom…

Qual o seu disco nacional preferido?
TA: Isso muda demais conforme o meu momento. Eu costumo mergulhar em tudo que eu gosto e me apaixonar por discos até que outro me encante. Falar de um em especial me faz sentir um traidor dos meus outros amores. Mas coloque aí qualquer um de Chico ou Caetano e está bem escolhido.

E o internacional?
TA: A mesma coisa. Ultimamente tenho ouvido muita música francesa, Thomas Fersen e Zaz. Mas The Wall, do Pink Floyd, e Sgt. Peppers, dos Beatles, têm uma presença forte na minha história.

Para você o que a MPB representa?
TA: Quando eu viajei para Buenos Aires vi em cada esquina a estátua de um herói nacional. Todos militares e políticos. Vi que o povo tinha verdadeira paixão por seus heróis. De repente, pensei no Brasil e me perguntei: quem são os meus heróis? Quem são os heróis do povo brasileiro? A princípio fiquei bem angustiado por não ver em nenhum político, militar ou algo do tipo qualquer admiração pública. Mas aí cheguei a uma conclusão. Se fossem construir estátuas dos nossos heróis elas seriam dos nossos artistas. Estátuas de Chico, Caetano, Caymmi, Bethânia, Gal, Alceu, Roberto e tantos outros. A MPB é a identidade do brasileiro, sua alma mais plena.

O que os fãs do Tiberio Azul podem esperar no futuro?
TA: Um artista entregue como eu visa esperar nada, o vão, o vazio. A entrega é a minha grande obra, o silêncio minha canção mais poderosa. Os fãs do que eu faço podem esperar de mim aquilo que nasce do nada: tudo.

Tramp entrevista é uma série de conversas com os principais nomes da música nacional, onde os mais diferentes artistas respondem sempre as mesmas perguntas sobre música, composição e vida.