capa_destaque_discos

A pedido do Tramp, escrevi sobre os 20 melhores álbuns que ouvi no ano passado.

“Por que o Daft Punk não tá em primeiro?” “E o Arctic Monkeys?” “Não tem nada de metal aí!” Bem, listas são listas. Se ninguém discordar, não tem graça.

Provavelmente, fui injusto com alguns e bonzinho demais com outros. A sua lista de discos favoritos do ano passado deve ser diferente, mas espero ter conseguido justificar todas as escolhas.

O que eu posso garantir é que não recebi nenhum tipo de propina. Portanto, essa lista pode ser tudo, menos desonesta.

Se você confia em mim, os discos estão logo abaixo.

Menções honrosas: The Night’s Gambit (Ka), Muchacho (Phosphorescent), Shaking The Habitual (The Knife), Silence Yourself (Savages), Sunbather (Deafheaven), Wondrous Bughouse (Youth Lagoon) e Once I Was An Eagle (Laura Marling). 

 20 – Haim – Days are Gone

discos_2013 (4)

A “girl band” norte-americana salvou muitos tios hipsters que não sabiam o que dar para as sobrinhas pré-adolescentes no “amigo secreto” de fim de ano da família. Só que Haim não é a versão feminina de Hanson ou qualquer outra banda pop de verão, como pode parecer de longe. As irmãs Este, Alana e Danielle Haim (daí vem o nome da banda) apresentam em “Days are gone” pelo menos três motivos para apostar nelas no futuro: são claramente talentosas (todas tocam e cantam muito bem, além de comporem); o disco tem uma unidade incomum para o nicho (se você gostou de qualquer um dos hits, seja Falling, Forever ou Don’t Save, as outras não vão te desapontar); e, por último, o que mais me impressiona: durante as músicas, elas parecem se divertir como se estivessem na garagem de casa. É possível notar até uma base mais rock em faixas como My Song 5 – o que me parece uma pista do futuro musical das moças, que parecem ter sido retiradas de algum tumblr. Não é um álbum para encabeçar tantas listas por aí, mas as sobrinhas certamente gostaram do presente.

Ouça: “My Song 5”, “Forever” e “Don’t Save”

 19 – Paul Mccartney – New

discos_2013 (16)

Afinal, o que tem de novo no disco do Paul McCartney? Para falar a verdade, pouca coisa. Tirando algumas músicas realmente mais moderninhas – como a melhor do disco, Appreciate -, o resto é o velho Macca de sempre, levemente repaginado com arranjos eletrônicos. Com a solar (sim, ouça pela manhã e veja os resultados no seu humor) Save Us abrindo o disco, “New” resgata algumas das melhores características do Wings, banda que Paul e a sua ex-esposa Linda formaram após o fim dos Beatles. “Road” e “New” trazem Paul de volta ao improviso vocal e de instrumentos e “Looking at her”, aos seus melhores momentos de letrista. Se o seu Beatle favorito é outro, talvez este não seja o disco indicado. Caso tenhamos algo em comum, procure a versão do álbum com as bônus track “Turdet Out” e “Get Me Out Of Here”.

Ouça: “Save Us”, “Looking At Her” e “Appreciate”

 18 – Daft Punk – Randon Access Memories

discos_2013 (10)

Eu tenho minhas diferenças com este disco. Três exemplos: eu odeio o vocal sonolento de Julian Casablancas em Instant Crush, imagino Within e Beyond tocando por anos na Antena 1 e às vezes acho que Don’t it right foi gravada por um cover do Beach Boys no karaokê. Mas o que eu posso fazer se, no mesmo Random Access Memories, a gente encontra Get Lucky, Lose Yourself to Dance, Giorgio by Moroder e Touch? Por elas, eu sou até capaz de tolerar as outras.

Ouça: “Get Lucky”, “Lose Yourself to Dance” e “Giorgio by Moroder”

17 – John Legend – Love in the Future

discos_2013 (20)

Mesmo sendo um excelente cantor e pianista, John Legend ainda não tem o talento devidamente reconhecido fora das premiações do Grammy. Talvez seja por causa do nome – algo como “João Fodão” em tradução para o português. Independentemente da forma como nós o chamamos, Legend gravou em 2013 um dos seus melhores discos e pouca gente se deu conta. Com toda a pretensão que a sua alcunha lhe permite, “Love in the future” nada mais é do que um tratado sobre os relacionamentos amorosos nos dias de hoje. Nele, o cantor apresenta alguns dilemas de relacionamento em meio a tantas declarações de amor à sua esposa, a modelo Chrissy Teigen. “Who do we think we are”, uma das minhas músicas favoritas do ano, fala da ostentação na vida luxuosa dos dois, por exemplo. Mas talvez o que mais chame a atenção no álbum é o tom confessional das letras: leia os versos de “The Beginning” e “Open your eyes” e saiba exatamente como o nosso querido João Fodão se tornou este homem tão apaixonado.

Ouça: “Who Do We Think We Are”, “The Beginning…” e “Aim High”

16 – Janelle Monáe – The Electric Lady

discos_2013 (3)

Assim como em seu primeiro e ótimo disco, The Archandroid, Janelle continuou contando a história de Cindi Mayweather, uma robô que é julgada por ter se apaixonado por um humano. Toda a trama futurista se passa em um ambiente inspirado no filme Metropolis, de Fritz Lang – um disfarce para que a intérprete trate, na verdade, dos problemas milenares do nosso planeta. Janelle pediu ajuda de Miguel, Prince, Solange, Esperanza Spalding e, principalmente, Erykah Badu (em Q.U.E.E.N, uma das grandes músicas do ano) para inserir a andróide em situações de exclusão que não são tão diferentes das sofridas por negros, mulheres e pobres mundo afora. Guetto Woman, a melhor faixa do álbum, lembra muito o som do disco duplo definitivo de soul music, do qual The Electric Lady não teve vergonha de se espelhar: Songs in the key of life, de Stevie Wonder.

Ouça: “Guetto Woman”, “Q.U.E.E.N” e “Primetime”

15 – Drake – Nothing Was The Same

discos_2013 (11)

Drake teria uma vida mais fácil se copiasse John Legend e se tornasse um cantor de músicas românticas. A badalação do mundo do hip hop norte-americano não combina muito com aquela cara de bom moço. Ele, porém, decidiu fazer um disco de rap grandioso, mesmo sendo do jeito que é – ou seja, com a sua falta de jeito para rimar e o seu risível esforço para parecer um gângster. Abusando de samples, “Nothing Was The Same” não se distancia muito do R&B e evita que o seu criador passe vergonha. O disco estourou com Hold On, We’re Going Home e, surpreendentemente, a música não está nem entre as cinco melhores do trabalho. Com uma produção que honra o belo trabalho de arte na capa, Drake teve sucesso ao relembrar a sua vida, suas influências e expor alguns dos motivos que o levam a nunca abrir um sorriso em público.

Ouça: “Too Much”, “Tuscan Leather” e “The Language”

14 – Chance The Rapper – Acid Rap

discos_2013 (8)

Ouça “Good Ass Intro”e me diga: você ouviu algum início de disco melhor em 2013? Agora, toque a terceira música, Cocoa Butter Kisses. Não sei você, mas quando ouvi, lembrei logo de Swimming Pools, do Kendrick Lamar, autor do melhor disco de rap do ano passado. Vou tentar definir: “Acid Rap” é só o EP de estreia de um rapaz que gosta de jazz, beats antigos e se espelha no melhor nome desta geração do hip hop. Tudo isso soa muito mais animador ao ouvir o rapaz em ação nas 13 músicas deste trabalho…

Ouça: “Cocoa Butter Kisses”, “Good Ass Intro” e “Lost”

13 – Blood Orange – Cupid Deluxe

discos_2013 (6)

Nunca tomei essas coisas, mas Cupid Deluxe me parece uma viagem de LSD em uma balada cafona (olha essa capa) do final dos anos 80. Toda a alegria antiquada, a psicodelia, a black music com reverb do início do disco entram em contraste com a tristeza e arrependimento que surgem a partir de Always Let U Down – antecipado pela grande faixa do disco minutos antes, Chosen. Desde que conheci The Weeknd, não consigo resistir a qualquer disco de final de festa. Ouça o disco de madrugada e não use drogas.

Ouça: “Chosen”, “Always Let U Down” e “On the Line”

12 – Neko Case – The Worse Things Get, The Harder I Fight, The Harder I Fight, The More I Love You

discos_2013 (14)

“Por que uma mulher de 40 anos não pode ser solteira e sem filhos?” Com esta fala breve, presente em uma pequena matéria na revista Billboard (aquela edição com o Josh Humme na capa), Neko Case atraiu a minha curiosidade, que virou admiração logo após a primeira audição de “The Worse Things Get, The Harder I Fight, The Harder I Fight, The More I Love You”. Pelos temas feministas (ridiculariza a masculinidade e reforça sempre a independência da mulher em diversas letras) e pelo longo título, o álbum lembra bastante “The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do”, da Fiona Apple. Durante o disco, o que mais impressiona é a maneira como Case demonstra a sua complexidade: quando tudo que ela diz parece resignação e pessimismo, ela abre o seu diário e apresenta alguns dos seus sonhos. “Ragtime” é um dos mais bonitos.

Ouça: “Night Still Comes”, “Man” e “Ragtime”

11 – Charles Bradley – Victim of Love

discos_2013 (9)

Ele já foi mendigo, cozinheiro e cover de James Brown. Charles Bradley é o Away de Petrópolis deles – não tão engraçado, mas muito mais sóbrio e talentoso. Ao contrário do seu ótimo disco de estreia, “No Time For Dreaming”, no qual o cantor ironizava a sua estreia tardia em estúdios com o título irônico, dessa vez surge de peito aberto. Enquanto o nosso Gil Brother se perde cada vez como vlogueiro (ele protagonizou recentemente uma ridícula versão de Suit and Tie, de Justin Timberlake, que nada mais é do que uma apologia escrota ao estupro), Bradley se declara, com vocal rasgado, à música, sua paixão redentora. O disco não poderia terminar de outra maneira que não a última frase de Through The Storm: “obrigado por todo amor que você me deu”. Bradley conseguiu retribuir tudo o que recebeu dela, a sua amada soul music, neste disco.

Ouça: “Striclly Reserved to You”, “Confusion” e “Crying In The Chapel”

10 – James Blake – Overgrown

discos_2013 (15)

Depois de uma estreia marcante, o menino inglês de 25 anos retornou mais acessível aos trabalhos em seu segundo disco. “Retrograde”, o primeiro single, tirou o jovem do gueto hipster e o colocou para tocar em rádios e programas de clipes da MTV e da VH1. Blake também se aproximou definitivamente do hip hop em “Take a Fall for Me”, com participação do rapper RZA. Mas o que realmente parece marcante neste é o encontro do jovem com o lendário Brian Eno em “Digital Lion”. Sem Eno, não existiria James Blake – até mesmo essa mudança no som, tornando o dubstep mais pop, parece influenciada pelas produções do careca. A aproximação dos dois define o que é “Overgrown”.

Ouça: “Retrograde”, “Digital Lion” e “To The Last”

9 – Tedeschi Trucks Band – Made Up Mind

discos_2013 (5)

Pelo nome, parece banda de caminhoneiro do sul dos Estados Unidos. No entanto, Tedeschi Trucks Band é a banda de um guitarrista de blues (Derek Trucks) e a sua esposa, Susan Tedeschi. Neste segundo trabalho de estúdio, o álbum é muito mais dela do que dele. O vocal forte e incrivelmente afinado de Susan conduz “Made Up Mind” por diversas fontes, desde a música negra (Misunderstood) até os rocks setentistas (Whiskey Legs).  “Do I Look Worried” lembra as melhores músicas de Amy Winehouse. As baladas desiludidas “It’s So Heavy”  e “Calling Out to You” merecem mais do que centenas de isqueiros acesos no alto – um clichê deste não é digno de acompanhar tais músicas. Por que, então, o álbum foi esquecido por tantas listas? Sabe como é, pega mal gostar de um grupo de um casal quarentão que tem “caminhão” no nome…

Ouça: “Made Up Mind”, “Do I Look Worried” e “Calling Out To You”

8 – John Grant – Pale Green Ghosts

discos_2013 (12)

A mistura de música folk com eletrônica resultou em Pale Green Ghosts, um dos discos mais surpreendentes do ano passado. John Grant tem um jeito sincero, triste e peculiar de fazer poesia. O canto foi diagnosticado com aids recentemente e desabafou sobre este e demais sofrimentos, como o alcoolismo, a dependência das drogas e até abuso sexual sofrido na infância, em seu álbum. Tudo isso sem deixar de lado a ironia e uma comovente felicidade momentânea que toma conta nos momentos mais contagiantes do disco. Em um dos períodos mais difíceis da sua vida, Grant ainda se deixa levar pela dança.

Ouça: “GMF”, “Why Don’t You Love Me Anymore?” e “Black Belt”

7 – Queens of Stone Age – …Like Clockwork

discos_2013 (17)

A adoração coletiva pela banda de Josh Humme me intriga. Quando lançaram os seus três melhores discos, de 1998 a 2002, pouca gente ligava para o som de rock no deserto dos caras. Eles foram por muito tempo, principalmente no Brasil, “aquela banda lá do cara pelado no Rock in Rio”. De repente, quando Humme e seus súditos lançaram álbuns não mais que medianos (mais para fracos do que bons), como “Lullabies To Paralyze” e “Era Vulgaris”, de 2005 a 2013, todo mundo passou a amar Queens of The Stone Age (“a grande unanimidade musical dos últimos tempos”, “John Humme, símbolo sexual hetero”, blá blá blá). Com esse ambiente favorável, era de se esperar uma recepção mais calorosa ao ótimo Life Clockwork… O que se vê por aí, na verdade, são reclamações do tipo: “Queens não é mais aquele”. Ora, não é mesmo – e está muito melhor que nos últimos discos. A maturidade trouxe menos peso ao som dos caras, mas deixou o som elegante e mais sexy, mesmo sem explorar temas sexuais, como em Keep Your Eyes Peeled. Além disso, a melhor música do ano está aqui: I Sat By The Ocean.

Ouça: “I Sat By The Ocean”, “Fairweather Friends” e “Keep Your Eyes Peeled”

6 – Nick Cave – Push The Sky Away

discos_2013 (1)

“Push The Sky Away” é um disco, mas poderia ser um livro de poesias. Com uma capa tão bonita, também serviria como objeto a ser observado em alguma parede de exposição. Julgando pelo clipe de Jubilee Street, podemos imaginar o álbum até como um filme noir para maiores de 18 anos. A grande beleza deste último trabalho de Nick Cave está justamente na capacidade de ser tudo isso. Ouça e repare como as letras deixam muitas pontas soltas nas histórias.  Talvez Push the Sky seja ainda mais.

Ouça: “Jubilee Street”, “Mermaids” e “Higgs Boson Blues”

5 – David Bowie – The Next Day

discos_2013 (18)

Um disco cujas todas as músicas têm potencial de hit pode ficar fora da lista? Para mim, não. A volta de David Bowie empolgou os fãs, mas gerou algumas reclamações dos mais moderninhos, que exclamaram “não tem nada de novidade em The Next Day!!!” e xingaram muito no feici e no twitter. Sim, é verdade, o disco parece mais uma retrospectiva de alguns momentos recentes da carreira do gênio – o que não me parece exatamente um problema. Como principal argumento contra essa afirmação, uso a relevância musical que ele nunca perdeu, mesmo tendo errado em vários discos nas últimas duas décadas. Depois de tanto tempo, o inglês continua influenciando grande parte das bandas novas, desde o som até a arte das capas dos álbuns aos formatos dos shows. Por tudo isso, nada pode ser mais atual do que o velho e sempre revisitado Bowie.

Ouça: “So She”, “The Next Day” e “Valentine’s Day”

4 – Vampire Weekend – Modern Vampires of The City

discos_2013 (19)

Eu não gostava de Vampire Weekend (cheguei a dizer que eles faziam som para micareta indie) até ouvir “Modern Vampires of The City”. Não cheguei a adorar o disco de cara, mas aos poucos fui me rendendo. Começou com Obvious Bicycle, com toda a sua estrutura arrastada e cheia de ecos. Sem dúvida, uma música muito Beach Boys. Já era uma grande evolução. Porém, eu só realmente entendi o que tinha de tão brilhante neste disco quando procurei as letras. Quantas histórias de relacionamentos amorosos foram tão bem contadas quanto Step (a letra é enorme e cabe em apenas quatro minutos)? Entre tantas bandas jovens, quais conseguiram transmitir a insatisfação crônica de uma juventude que tem muito mais facilidades e, consequentemente, novas perturbações? O tédio, a insegurança e o sentimento de rejeição do mundo estão lá, em Umbelievers, em Ya Hey e muitas outras. Arrisco dizer que nenhum outro disco, -não só deste ano – captou tão bem o que significa ter nascido a partir do final dos anos 80. Como você já percebeu, os vampiros citados no título não se referem apenas a eles.

Ouça: “Obvious Bicycle”, “Step” e “Ya Hey”

3 – Julia Holter – Loud City Song

discos_2013 (2)

A voz sussurrada e os passos apressados de “Horns Surrounding Me” ajudam a explicar Loud City Song, um olhar noturno sobre o que mostra e esconde a cidade. O tema é bastante semelhante ao do filme “O Som Ao Redor”, mas sem os limites do condomínio. As imagens da metrópole são citadas casualmente, como o homem de negócios de “This is a true heart”, a vista da janela da já citada “Horns” e o famoso restaurante de Paris que empresta o seu nome a “Maxim’s I” e “II”. O clima de voyeurismo persiste em todo o álbum, assim como o medo de envelhecer, citado em praticamente todas as músicas. As viagens, os amores e as lembranças são apenas distrações. Na visão de Julia, a vida se perde a cada instante vivido na cidade. Enquanto isso, ela observa e admira passarinhos em árvores. A união entre beleza e pessimismo tornam este disco essencial para a sobrevivência em um limite de poucos metros quadrados.

Ouça: “This Is A True Heart”, “Maxim’s I” e “Hello Stranger”

2 – Kanye West – Yeezus

discos_2013 (13)

Kanye West vive se equilibrando numa linha que separa o genial do ridículo. Lembro que a minha primeira reação ao ver a capa de Yeezus foi: RISOS. Como uma capa finge não ser uma… capa? Vão colocar isso nas lojas? Depois disso, fiquei sabendo que o álbum teria uma música chamada “I am a God”. “O megalomaníaco enlouqueceu de vez”, pensei, cogitando não ouvir nenhuma música. A curiosidade foi maior e baixei o disco assim que saiu, imaginando que encontraria algo para criticar por anos. Para a minha surpresa, Yeezus era perfeito – para os padrões do Kanye, claro. Há alguns erros (“A monster about to come alive again / Soon as pull up and park the Benz / We get this bitch shaking like Parkinson’s” não é engraçado, como ele pensa) e momentos constrangedores (no meio de Bound 2, encontramos “I wanna fuck you hard on the sink”), mas os acertos são tão  (propositalmente) grandiosos que jogam tudo para debaixo do tapete. Kanye West tem os seus defeitos e eles estão à mostra, mas eles só o fazem um artista ainda mais marcante. Passamos dias falando mal da ideia do vídeo de Bound 2 – e qual é o clipe mais marcante do ano? O próprio. Até quando erra, West se consolida como o grande artista pop dos nossos tempos.

Ouça: “Black Skinhead”, “Bound 2” e “Blood On The Leaves”

1 – Arcade Fire – Reflektor

discos_2013 (7)

Rolling Stone, Guardian, New York Times, MTV, Allmusic e tantos outros veículos compararam e não serei eu que vou fazer diferente: “Reflektor” é o “Achtung Baby” do Arcade Fire. Assim como o disco do U2, o melhor álbum do ano (para mim, claro) também representa uma guinada dançante na carreira de uma banda reconhecidamente pretensiosa (outra semelhança). Os sintetizadores, os refrões de arena, a mistura de ritmos, enfim, há muitos pontos em comum. Só isso, porém, não explica o que faz Reflektor ser tão impressionante para ganhar o prêmio. Se eu tivesse que justificar em apenas uma palavra, diria “universo”. Nele, são dois: um que parece (não é, eu já explico) festivo (disc 1) e outro que mistura contemplação e sofrimento (disc 2). Ambos contam o romance da Mitologia Grega entre Orfeu e Eurídice, que gerou diversas adaptações – inclusive o filme brasileiro “Orfeu Negro”, principal influência da banda nas letras. O início da história é trágico (sabe “See you on the other side” de Reflektor? É o Orfeu conversando com a mulher morta) e o casal apenas se concretiza após a morte (vejam só: Afterlife é a passagem e Supersymmetry, o final feliz). Quando eu descobrir a razão por trás daquelas letras, a sensação não foi exatamente de descoberta – reconhecimento se encaixa melhor. Antes mesmo de saber da história que inspirou o álbum, “Reflektor” já havia sido o álbum que tinha feito me sentir em outro ambiente, longe da realidade. Para mim, os discos, livros e demais seguimentos que envolvem arte e entretenimento servem para isso: uma espécie de fuga controlada. De tudo o que ouvi em 2013, de todos os mundos que visitei e listei aqui no Tramp, nada se compara a experiência de viver (e morrer) dentro deste disco.

Ouça: “Normal Person”, “Reflektor” e “Afterlife”