Existem certas histórias que as cidades não contam, mas revelam. Trechos de vida esquecidos em ruas esburacadas, no caos do vai e vem, nos olhares perdidos amontoados no transporte público. Uma infinidade de segredos e sentimentos deixados todos os dias pelas milhares de pessoas que na correria do cotidiano abandonam um pouco de si, se espalhando por aí.

Inspirados nesses movimentos e no que eles representam, os músicos Galego (voz), Marcelo Sanches (guitarra), Davi Indio (baixo) e Bianca Predieri (bateria) formaram um novo grupo, ou Coletivo Rua, que lançou no último dia 26 de julho seu disco de estreia, homônimo. Produzido pela própria banda em São Paulo (SP), no Estúdio Elefante, com mix e master de Buguinha Dub, no estúdio Mundo Novo, em Olinda (PE), Coletivo Rua é um grito de alerta, um recado urgente, uma chamada pela união.

“Esse disco veio de modo muito espontâneo, tava tudo muito dentro da gente”, explica o vocalista Galego sobre o processo criativo da produção. “O álbum é um olhar para o Brasil de hoje em dia, de como a vida para uma boa maioria de brasileiros está ruim e esquisita. É sobre união, porque no fundo estamos todos na luta. A gente defende também a importância da arte, de como ela é uma janela para cultura e educação, uma ferramenta para a construção de um bem comum”, declara.

Coletivo Rua (Crédito: Matheus Matta)

Na bagagem sonora, o Coletivo Rua trouxe para esse álbum influências variadas, ecléticas entre si e complementares no todo. Rock, rap, música popular brasileira, samba e jazz são alguns dos tons que compõem as melodias das dez faixas do álbum.

“Cordeirinho” abre o disco com uma batucada próxima ao afrobeat, denunciando em sua letra tipos de opressões corriqueiras no dia a dia do brasileiro comum. “Sagarana” vem na sequência, de pegada mais rap e fazendo analogias do mundo animal com a selva urbana. “Coragem”, faixa de base jazzística, foi também o primeiro single do trabalho e traz a participação especial do rapper Sombra.

A quarta “Grana”, segundo single lançado, questiona as regras e a disposição ditadas pelo dinheiro, em um rap direto com Lurdez da Luz como convidada especial. “Multi” remete a ritmos brasileiros como o baião e o manguebeat e traz o cantor China participando dos vocais.

“Ponto de Fulga” mescla reggae e jazz numa melodia encorpada e de vocal melancólico. A composição reflete embates dos tempos atuais e joga luz sobre uma das possíveis soluções para estes conflitos: “É preciso se reinventar”. “Inunda” é mais soturna, de rock mais intenso e pesado. A oitava, “Primeira Divisão”, é também a mais eletrizante do álbum, devido aos samples siderais que passeiam pela faixa.

“Eu Vim da Beira Voz” evoca a união de forças e traz em sua melodia referências ao reggae. A última, “Tranquilidade”, encerra o álbum com a participação especial da cantora Yzalú, numa vibe soul music, feita de baixo consistente e guitarra dançante. Ouça: