Dolores 602 (Crédito: Raquel Pinheiro)

Um mapa aberto para o novo, sem dimensão ou trajetória pré-definida, todavia amplo e repleto de possibilidades. Esta é a rota poética tomada pela banda mineira  Dolores 602, em seu álbum de estreia, Cartografia, lançado este mês nas principais plataformas digitais e na versão física.

Com uma pegada indie pop e co-produção de Thiago Corrêa (Transmissor) – com quem a banda já havia trabalhado no single “Petit a Petit” [ouça aqui] –, o álbum contém dez faixas autorais que trazem uma sonoridade intensa e fluida, guitarras brilhantes, um baixo vintage, bateria setentista e uma voz que se mostra aveludada e penetrante. Dolores 602 é composta por Débora Ventura (voz, violão, guitarra), Camila Menezes (baixo, ukulele, voz), Isabella Figueira (bateria, gaita, escaleta) e Táskia Ferraz (guitarra, vocais). As quatro mineiras integram a banda há sete anos e lançam agora seu debute, gravado ao longo de 2017.

O desejo de estar em estúdio veio em 2016, como forma de registrar as canções e gerar mais consistência à identidade sonora da banda. “A música gravada tem essa potência de chegar em lugares inesperados e é isso que queremos: trilhar novos caminhos e continuar escrevendo essa história”, comenta Isabella. “Cartografar é um processo de constante transformação e descoberta, nunca termina e para nós está começando um novo caminho”, completa Camila.

“Fizemos o disco num processo estendido, com tempo de deixar a música amadurecer. Começamos experimentando roupagens diferentes de músicas já existentes e novas canções foram surgindo. A escolha das que iam entrar pro disco baseou-se numa sensação de pertencimento”, pontua Débora sobre o processo criativo por trás do trabalho.

Uma banda de mulheres fortes e feministas que levam a poesia a sério. A guerrilha poética de falar do dia-a-dia, de flores, de cores, de leveza. A coragem de falar do amor com simplicidade e elegância. “Acho urgente falar sobre pequenas belezas. Nosso tempo tá confuso, as pessoas são enganadas facilmente com notícias ruins o tempo todo e desejar amor ao outro é uma forma de mudar essa perspectiva”, reflete Táskia.

Influenciadas por diversas bandas contemporâneas – com referências que vão da baiana Maglore às americanas The Black Keys, Widowspeak e Warpaint, passando por The Cranberries, Rita Lee e Pato Fu –, as mulheres da Dolores 602 fizeram de  Cartografia  seu próprio mapa musical, utilizando de diversos backgrounds e inspirações para desenhar as faixas do disco.  Para a banda, “o disco traz uma mensagem de liberdade, de viagem, de esperança, de novos caminhos, aceitação e superação”.

Novos movimentos artísticos e políticos da cidade onde moram, Belo Horizonte, também foram inspiração. Em “Cura meu olhar” – faixa que abre o disco –, Camila se inspirou no projeto visual CURA – Circuito Urbano de Arte,  intervenção urbana plural que coloriu uma paisagem antes cinza.

“Maior”, que foi a última faixa a ser composta e gravada, ganhou a linda voz de Thiago Corrêa e a guitarra melodiosa de Henrique Matheus. Em “Cartografia”, música que dá nome ao disco, Débora e Camila dividem o vocal pela primeira vez. “Astronauta” começa se mostrando serena, mas se transforma em uma música enérgica, como chuva que vira tempestade, com letra que remete ao contexto político do país.

“De certa forma esse trabalho descreve alguns aspectos do que a gente vive, mas não que isso seja algo fechado. Qualquer pessoa que estiver ouvindo é capaz também de cartografar por si mesma e dar sua significação”, pontua Camila. Erotismo também é um tema, como em “Ponto Zen”, que diz “eu quero sempre te tocar, sentir, nutrir, molhar”, mostrando uma corporeidade do afeto.

A última faixa do disco, “Dolores”, foi lançada como single em dezembro de 2017 acompanhada de um clipe [assista aqui] que é um grande memorial dos sete anos da banda, além de conter cenas de registro do processo de produção do disco, em especial imagens capturadas no dia da gravação do acordeon de Iara de Andrade. O clipe foi co-dirigido por Raquel Pinheiro juntamente com a própria banda, que se envolve em todas as etapas de criação.

Essa coletividade toda é algo bastante presente e marcante no processo criativo de Dolores 602, que ao longo de sua trajetória sempre escolheu compartilhar de forma horizontal as escolhas artísticas e políticas da banda.