De um dia para o outro, os Ermo desapareceram da internet e silenciaram a sua música, apesar de desde o início da década acalentarem a nossa esperança de uma nova vaga de música portuguesa. Diziam em 2014 e a propósito do disco Vem Por Aqui [disponível para download gratuito] que o mesmo tem “como mote a retratação do Portugal actual, que é como todos sabemos um país que não vive ao nível do seu potencial (para usar um eufemismo)” [ler entrevista na íntegra].

O descontentamento surpreendentemente resignado foi ponto central da sua discografia inicial, um leque de hinos enraizados em nomes como José Régio, em que a angústia e sufoco herdados de Amália Rodrigues vibram pelo sintetizador de Bernardo e pela voz assombrada de António. Em palco, os rapazes da cidade de Braga sempre viveram do movimento cênico e retorcido do vocalista, uma encarnação da dúvida paralisante de toda uma geração de 20 e 30 anos no pico da crise que assolava um país no precipício.  Recordo-me de quando os vi no Musicbox, naquele palco escuro e abrigado numa cave, no coração da capital Lisboa: António saca do seu bloco e corre os olhos pelas páginas escrevinhadas, largando um choro que clama um futuro: e agora?, ecoou nos nossos ouvidos.

Sempre tive uma queda por fatalismo e, sinceramente, não sei como não me juntei a uma tribo de urbano-depressivos nihilistas e porém, simultaneamente, hedonistas.

Mas esses tempos já passaram, e tal como a pátria os Ermo ergueram-se e reinventaram-se. Regressaram à internet, mas apagaram a sua pegada digital, exerceram o seu direito ao esquecimento e fizeram um reboot ao Facebook e ao Bandcamp. Uma decisão que se explica na primeira audição do disco editado em Junho deste ano, Lo-fi Moda. Já não são os mesmos de 2015.

Enigmáticos como sempre, hoje apresentam-se com maior secretismo. O rosto surge agora tapado, quer em fotografia quer ao vivo. Pedem-nos que ouçamos a sua música para lá do que é aparente, impedem que façamos distinção entre um e outro, voz e música entrelaçadas complementam-se na perfeição.

O peso do mundo nos ombros da juventude desapareceu e agora convidam-nos a dançar. Lo-fi Moda é um daqueles álbuns que me conquistou à primeira, o que menos verbalização me suscita e, tal como o amor, produz sentimentos difíceis de traduzir em palavra. Sobretudo, é um álbum libertador, descomplexado, apaziguador e que nos convida a curtir, curtir, curtir.

Sabemos também que foi na viagem ao Brasil, para actuar no festival DoSol, que se sentiram desafiados a esta mudança de rumo, à evolução pessoal e estética, com um passo para a profissionalização, como confessaram em entrevista ao Público recentemente. Admitiram “estávamos a perder a corrida contra nós próprios. O nosso gosto musical estava a evoluir, mas a nossa produção musical não” e, portanto, precisaram de “profissionalizar o som e dar uma injecção de maturidade à banda“.

A electrónica e o sintetizador estão apurados e refinados. Sons complexos, robóticos e às camadas, em que cada faixa tem a sua própria identidade e batida. A palavra não é remetida para segundo plano, muito pelo contrário, encontra ainda maior força e mantém o carácter xamânico de quem lança um feitiço.

Homem-máquina unem-se e confundem-se, e eis que Ermo regressa à sua essência. Já não são fotografia de um Portugal à deriva, mas sim o reflexo de uma era digital, distraída pelo frenesim quotidiano de quem tudo recebe mas pouco absorve. Esclarecem sem hesitação: “Vem tentar chegar, falhar” dizem-nos em “Vem nadar ao mar que enterra” nos primeiros 30 segundos do disco; “Fazer parte de um papel, só faz parte do papel” afirmam em “«»“, faixa #7.

Contra“, “ctrl+c ctrl+v” e “Frito Futuro” mereciam ser tocadas num Boiler Room em Londres. Aliás, o concerto de lançamento foi uma espécie de ensaio para tal consagração (quero acreditar!) e tudo aconteceu na sua cidade-mãe, no espaço Projéctil – casa em que deram os primeiros passos e gravaram os primeiros sons. Foi uma noite em que mergulhamos e deixamo-nos encantar por este trabalho.

Nas palavras do profícuo Luís Salgado, programador cultural que poderão conhecer na vossa próxima visita ao Porto com paragem obrigatória no Maus Hábitos e cérebro da operação em Stereoboy, Lo-fi Moda é do caralho (ou foda, no equivalente Brasileiro). Não se choquem com tal apreciação: é um disco forte, intenso e que merece tamanha reacção visceral.