Durante cerca de um ano, a RTP e a Antena 3 (canal de televisão e estação de rádio públicos de Portugal) percorreram o país de Norte a Sul em busca do melhor talento independente, numa série de seis episódios documentais pensados por Rui Portulez.

Sem choro nem vaidade, os colectivos entrevistados falaram dos seus projectos, das suas vitórias e de como se estrutura um negócio de sucesso no meio alternativo. Sem o apoio das majors, editam alguns dos nomes mais relevantes e inovadores do actual panorama musical. E, claro, sem nunca esquecer o papel preponderante dos canais digitais, que aceleraram e revolucionaram a distribuição discográfica.

Lovers & Lollypops

A primeira paragem do roteiro foi Barcelos, pequena vila do norte, na região do Minho, a 40 quilómetros do Porto. Sempre ouvi chamarem a Barcelos uma ‘cidade do rock’, uma espécie de Seattle portuguesa, pela quantidade de talentos que revelou ao mundo. Recebe há 7 anos e em Julho o festival Milhões de Festa, um sinônimo de romaria para melómanos da bacanidão e da música à piscina, um happening anual promovido pela editora local Lovers & Lollypops. As memórias de Joaquim Durães, aka Fua, e Márcio Laranjeira marcam o primeiro episódio de I Love My Label. São responsáveis pela promotora e editam nomes tão sonantes no meio como os Glockenwise, de Barcelos, o virtuoso guitarrista Filho da Mãe, os geeks do loop Memória de Peixe, a doce Sequin, os imensos Black Bombaim, o exótico Jibóia, entre outros.

Pataca Discos

João Paulo Feliciano é o fundador de uma editora nascida no coração de Lisboa em 2009, igualmente artista plástico de renome, nascido em 1963 nas Caldas da Rainha. A título de curiosidade, é irmão de Mário Feliciano type designer reconhecido internacionalmente. João Paulo criou a Pataca Discos pelo amor à música e, nas suas próprias palavras, para ter “a liberdade de ser eu a escolher e decidir o que editar, sem ter que dar satisfações a ninguém, só porque gosto e quero”.

Tudo começou com os Real Combo Lisbonense, um colectivo de músicos que recupera o espírito das canções de baile e os clássicos de sempre da música portuguesa; foi a primeira casa de Márcia, a mais promissora voz feminina do pop-rock contemporâneo e que devem ouvir aqui; editaram os primeiros sons de You Can’t Win Charlie Brown. Bruno Pernadas, João Correia e Luís Nunes são igualmente nomes fortes da casa, desdobrados nos seus projectos Julie & The Carjackers, Walter Benjamin, Benjamim, Tape Junk ou They’re Heading West. O espírito de colaboração marca toda a edição da Pataca, e provavelmente porque assumem “Não vale a pena enviar nada [maquetes]. A música da Pataca Discos nasce de dentro para fora”.

Discotexas

Em 2017, a Discotexas comemora o seu décimo aniversário. Tudo começou pela mão Moullinex e Xinobi, que são hoje os produtores e djs Portugueses mais bem sucedidos – pelo menos pela minha bitola. Talvez a maior parte de nós nem saiba: mas a sua carreira é feita, sobretudo, nos arredores da Europa, da Ásia a América Latina. Xinobi foi em tempos guitarrista dos defuntos punk rockers The Vicious 5, banda que dividia com Joaquim Albergaria agora baterista em PAUS, que por sua vez é dividida com Hélio Morais, de Linda Martini. Hoje a Discotexas é uma household name no que toca à electrónica, num mini-doc a descobrir aqui.

Omnichord

A Rádio Universitária de Coimbra (RUC) é uma das mais reputadas rádios portuguesas. Mais que uma escola, é rampa de lançamento de grandes talentos e ainda casa do influente programa “Santos da Casa”, 100% dedicado ao talento nacional e em que se “expõe o raro e rareia-se o exposto. Dos velhos discos do sótão e da cave aos novos mais escondidos. Muita música e algumas ideias”. Foi na RUC que o fundador da Omnichord Records se lançou na música, uma editora fundada em Leiria em 2012, coração da região centro de Portugal.

Diversidade não lhe falta, mas a grande coerência e o ponto que todos os artistas da label têm em comum é a sua juventude, frescura e muita vontade de viver intensamente: comparem Born A Lion – um dos últimos nomes do rock musculado e sujo feito por cá, e Surma – uma poderosa one-woman-band de sons exóticos e transcendente, sonhadores e orgânicos nascidos do loop, cujo primeiro single podem ouvir acima, uma produção de Emanuel Botelho (ex-Sensible Soccers e RUC). Depois de verem o mini-doc sobre a Omnichord (vejam aqui), irão rapidamente perceber que o amor está na base de tudo, especialmente na sublime produção musical que passo a passo conquista os nossos ouvidos.

Rastilho

O vol. 5 da série I Love My Label não é para fracos: Rui Portulez foi conhecer o punk rock da Rastilho e do Pedro Vindeirinho, fundador de mohawk (ou crista, como sempre lhe chamei). A banda Mata-Ratos é a mais antigo do catálogo, mas os Parkinsons de Victor Torpedo têm fortes ligações à casa do hardcore.

Bizarra Locomotiva e Devil In Me são nomes incontornáveis da Rastilho. Os If Lucy Fell de Makoto Yagyu / Hélio Morais / João “Shela” Pereira (de PAUS, de quem falei ali acima) e de Rui Carvalho agora conhecido como Filho da Mãe, editaram igualmente por Rastilho. Editaram ainda a Naifa e Dead Combo, em que a portugalidade e a exploração sonora das cordas e instrumentação clássica se destacam no catálogo.

Mas o name dropping não fica por aqui, é bem extenso, pelo que o melhor a fazer é visitar a rastilhorecords.com e ver o mini-doc (aqui) com bloco de notas na mão.

FlorCaveira

É o grupo de amigos a que todos gostaríamos de pertencer, em que a música e a religião se misturam, para dar origem a um género original: o panque roque. A FlorCaveira é muito mais que uma editora, é um movimento e uma tribo. Samuel Úria e Tiago Guillul, aka Tiago Cavaco, são os nomes fortes. Os Pontos Negros editaram pela FlorCaveira o seu EP em 2009, que os tornaria a grande promessa da cena portuguesa.

A FlorCaveira nasceu numa Igreja Baptista da região de Lisboa, mas o MySpace foi um dos canais que lhes mostrou novos amigos como Manuel Fúria (que mais tarde criaria a sua editora, a Amor Fúria, e de quem já vos falei AQUI), João Coração e até Jorge Cruz, que hoje é rosto dos Diabo na Cruz e escreve canções para nomes como a fadista Ana Moura ou Cristina Branco. B Fachada, Bernardo Fachada, é o nome mais improvável do colectivo FlorCaveira, sendo que o primeiro disco tinha o alerta: “este objecto fonográfico não contém ortodoxia cristã”.

Fazem a língua portuguesa a sua bandeira, e são um dos grandes culpados pelo renovado interesse da produção musical por cá. Disruptivos, gravaram sempre com raízes profundas na tradição musical nacional, naquilo que é mais genuíno.

Sempre seguros de si próprios, afirmaram desde o primeiro momento em 2008 “nós somos a melhor coisa dos últimos 20 anos”, e eu não desminto. Confesso que das seis labels da série do mini-doc, o catálogo FlorCaveira é o meu favorito: curto a cena deles, a atitude punk, a vontade de trabalhar bem e sempre melhor, a qualidade dos artistas e amigos com que sempre se rodearam. Para quem quiser conhecer a sonoridade e os artistas do grupo, recomendo vivamente o trabalho “Amamos Duvall” com direito a Disco 1 e Disco 2, Os Ninivitas, e Xungaria no Céu.