Siso (Crédito: Suelen Pessoa)

Em 2015, o cantor, músico e compositor norte-americano Sufjan Stevens lançava Carrie & Lowell, um de seus trabalhos mais conceituais e densos. Traduzindo em música sentimentos que ele carrega nas próprias lembranças de infância, Sufjan criou um álbum de família em forma de disco, homenageando sua mãe Carrie, com quem mantinha um complicado relacionamento pessoal e familiar. Entre essas memórias, Sufjan dedicou boa parte da obra para a reflexão da morte de sua mãe, que era esquizofrênica diagnosticada e também por conta disso apresentava um comportamento autodestrutivo muito forte.

Na época, em entrevista ao site Pitchfork, o artista declarou: “Comecei a acreditar que eu era geneticamente, habitualmente e quimicamente predisposto ao padrão de destruição dela. Mas rapidamente eu aprendi que você não deve ser preso pelo sofrimento e que, apesar de toda a natureza disfuncional de sua família, você é um indivíduo em total controle de sua vida”.

Numa linha de raciocínio e auto reflexão muito próxima à de Sufjan, o multiartista mineiro Siso discorre sobre suas raízes e passado em Saturno Casa 4, seu álbum de estreia lançado semanas atrás. Essencialmente pop, o disco traz também certas doses de melancolia, conjurando um otimismo sincero em relação ao Futuro, o único tempo que somos capazes de alterar – ou pelo menos, tentar.

“Na tradição astrológica, ter Saturno na Casa 4 denuncia um lugar de rigidez que diz respeito às raízes. Temos de superar cargas emocionais que vêm de uma história de dificuldade durante o início da vida, muitas vezes por traumas de infância ou por não nos sentirmos parte do nosso contexto”, explica Siso sobre o conceito do álbum em seu comunicado à imprensa. Influenciado por sons que se ouviam nas periferias de Belo Horizonte (MG) e do Rio de Janeiro (RJ) nos anos 90 – e que habitam o imaginário afetivo da infância de Siso – Saturno Casa 4 é marcado por elementos vindos de estilos como o charm, o funk melody e a freestyle music.

O disco abre com “Tentação”, de melodia dançante e arranjo eletrônico, prévia clara do que o ouvinte encontrará ao longo das próximas nove faixas. A cantora carioca Letícia Novaes, a Letrux, participa da segunda faixa, a balada pop “O Amor é 1 Arma de Destruição em Massa”. Já a canção seguinte, “1 em 1 Milhão”, segue por um caminho funk melody. As batidas de “Poucos Reais” trazem uma canção pop genuína, baseada num jogo criativo de vocais e uma linha suingada feita no synth. A lera revela uma época de vacas magras do cantor, enquanto adolescente e morador de um bairro periférico da capital mineira Belo Horizonte. O single “Saudade”, escrito por Leonardo Onerio (Umrio), vem na sequência, antecipando o pop funkeado de “Cada 1 Tem Seu Valor”.

Leonardo Onerio divide com Siso a letra de “Onde Termina a Calçada”. Paula Cavalciuk, revelação de Sorocaba (SP) que vem tocando em diversos festivais Brasil afora, participa dos vocais, potencializando um letra melancólica que fala da perda de alguém próximo e querido.

De tom extremamente confessional e profundo, Siso dispara em direção a uma de suas piores dores: a memória de um abuso sexual sofrido quando ainda era uma criança. Volta de lá com a letra de “Violado”, que traduz as confusas e dilacerantes experiências do menino agora na perspectiva maturada do homem adulto. Ao mesmo tempo em que confronta seus principais receios, Siso remonta o que aconteceu e as consequências geradas a partir daí e carregadas até agora.

“198 Centímetros” chega mudando de assunto, carregada do bom humor característico de sua compositora, Letrux. A suave canção trata das agruras cotidianas de ser alto – ela mede 1,85m e Siso, 1,98m. “Ouvi essa música ao vivo pela primeira vez dois anos atrás e rolou uma identificação muito grande, por ser hilariamente real. Decidi gravar naquela hora”, explica o intérprete. O álbum termina então com “4 de Ouros”, composta por Siso e Alexis Gotsis. Mais vibrante, conclui a obra com uma franca alegria, instigando os dilemas e delícias de um futuro desconhecido.

Assim, como um compilado de peças distintas que se conectam por algum fio invisível, Saturno Casa 4 permite ao ouvinte se encontrar consigo mesmo a fim de acalmar feridas e abrir sorrisos. “É um álbum sobre as violências estruturais que nos regem: familiar, religiosa, social, econômica, institucional. E ainda assim busca um jeito de atravessá-las, tentando preservar alguma leveza no meio disso tudo”, explana Siso. “Esse trabalho pode ajudar quem o ouve a lembrar do que se é, para que, ao invés de fincar os pés no registro da culpa, busque também se perdoar e ganhar perspectiva para seguir em frente”, conclui o artista, que também assumindo o controle sobre a própria vida criou um dos álbuns mais sensíveis do ano na música brasileira. Retomando uma fé absoluta de que seus rumos é você quem escolhe e igual a Sufjan, Siso seguiu em frente e nos chamou junto. Vamos?