Manuel Fúria já não é homem, mas sim um mito da música portuguesa. Uma personagem sublime e transcendente, que torna difícil acreditar que nasceu em carne e osso como cada um de nós. Descobrir a obra do filho da capital com raízes profundas na ruralidade portuguesa, é uma alucinante expedição arqueológica que desencova os ritmos dançáveis da década de 1980.

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Manuel Fúria (Crédito: divulgação)

Em 2017 editou Viva Fúria com a banda que o acompanha, os Náufragos, um disco que é uma colecção de hinos para qualquer pista de dança – quem sabe, uma festa de garagem num domingo à tarde? Um dos singles de apresentação, o “Cala-te e Dança”, resume a joie de vivre que tanto caracteriza as suas composições: guitarras alegres, bateria compassada e palavras descomprometidas que prendem o ouvido.

A primeira amostra do seu talento com que me cruzei saiu do EP de 2008, o disco de cinco faixas As Aventuras do Homem Arranha, que ainda hoje é um dos meus álbuns de eleição e que cai sempre bem. As cantigas (como tanto Manuel Fúria gosta de chamar às suas músicas) “A Porta do Princípio” e “Amantes Furiosos” destoam do som refinado com que o encontramos hoje. Fúria era mais melancólico mas já fiel aos instrumentos mais tradicionais da música portuguesa.

“Amantes Furiosos” é uma cover, uma interpretação própria do tema original dos Heróis do Mar – sobre quem tanto, tanto há a dizer. E acabaria por ser a inspiração para a editora de Manuel: a ‘Amor Fúria, Companhia de Discos do Campo Grande’, sediada no bairro do Campo Grande, em Lisboa. O domínio www.amorfuria.pt já não está activo, mas ainda é possível encontrar vestígios da editora pelo seu velhinho http://amorfuria.blogspot.pt. Em 2016 escreveu-se o óbito desta aventura de nove anos, uma editora que viu nascer alguma da melhor nova música portuguesa, sempre com o tom certo de revivalismo e saudosismo, e ainda pitadas de conservadorismo.

A banda Os Quais do reconhecido escritor Jacinto Lucas Pires editou por lá, Os Velhos deram os primeiros passos pela Amor Fúria, os Feromona e os Smix Smox Smux fazem parte do catálogo apesar da sua distância estética, Os Capitães da Areia e os O Verão Azul foram voz da juventude. Manuel Fúria foi produtor, maestro e mentor de tantos novos projectos.

Pela editora Amor Fúria (em parceria com o colectivo Flor Caveira) saiu ainda o disco memorável 20 Anos de Ruptura Explosiva, uma banda sonora não-oficial e em língua portuguesa do filme Point Break (1991), protagonizado por Keanu Reeves e Patrick Swayze. Na verdade, este disco de 2011 capta o zeitgeist da vaga de novos músicos portugueses.  Os Lacraus, Samuel Úria, Pega Monstro (as duas irmãs mais punk rock de sempre), Diego Armés, o uber-talentoso Nick Nicotine, e Cão da Morte & Coelho Radioactivo – estes últimos, autores da belíssima “Surf”.

Manuel Fúria diluiu-se em tempos na banda Os Golpes com quem gravou Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco (2009), nova clara alusão à influência dos Heróis do Mar cuja iconografia incluía sempre a Cruz de Cristo. Aliás, o amor viria a materializar-se quando o vocalista Rui Pregal da Cunha juntou a sua voz à de Fúria no sucesso pop e instantâneo “Vá Lá Senhora”. Se na década de 1980 os Heróis do Mar foram boicotados, banidos, insultados por ostentarem um certo nacionalismo subversivo e ideológico, em pleno século XXI o gentil apego de Manuel Fúria à sua pátria e identidade é enternecedor.

No disco de 2013 Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo, a primeira gravação com Os Náufragos fomos encontrar retratos românticos de um Portugal rural e ainda afastado dos centros urbanos, mas tão confortável como uma tarde bem passada em verdes montanhas que tocam o céu. Mas regressemos aos nossos dias: Manuel Fúria está na cidade, “Viva Fúria” brilha com arranha-céus e só lhe faltam néones. E sim: Fúria é pseudônimo, igualmente herdado dos “Amantes Furiosos”.