Tramp Entrevista: Bazar Pamplona


Bazar Pamplona (Crédito: divulgação)

Entre 2007 e 2012, qualquer fã ou entusiasta de música independente em São Paulo ouviu falar do Bazar Pamplona. Abraçada por um público fiel e apaixonado, o grupo paulistano também caiu nas graças da mídia especializada, que ajudou a semear esse rock para além da capital paulista. Só que a festinha que tava boa teve que acabar e em 2012, após o lançamento do álbum Todo Futuro é Fabuloso, a banda decidiu entrar num hiato, sem prazo pra voltar.

Seis anos depois, os integrantes Estevão Bertoni (letras, vocal e guitarra), João Victor dos Santos (guitarra), Rodrigo Caldas (bateria), Rafael Capanema (baixo e teclado) e Pinguim Miranda (teclado e baixo) retomam às atividades e não só criam novas canções como abrem uma campanha de financiamento coletivo para a produção de um disco de inéditas. Banda Vende Tudo, cuja estreia está prevista para Janeiro de 2019, é o resultado dessa movimentação toda, que teve como estopim um inesperado episódio: o pedido de uso de trilha de uma das canções do Bazar por uma cineasta alemã, que descobriu o som dos caras pela internet.

Doidera, né? Como boa parte da trajetória do Bazar Pamplona e de suas próprias canções, que divertidamente cruas e irônicas retratam a vida das pessoas, os amores e desencontros, a política e os anseios, as tristezas e as descobertas, tudo de modo muito franco e pessoal, este retorno do grupo acontece numa nova fase de cada um dos membros, trazendo canções inéditas que refletem esse outro momento, entre elas os singles “Dias Gordos” e “Bom Mesmo é Ouvir um Riff dos Stones”, já lançados e que você ouve abaixo ao longo da entrevista exclusiva que o vocalista Estevão Bertoni cedeu a Tramp. Bom divertimento e sejam bem vindos de volta, Bazar Pamplona.

A Bazar foi uma banda muito acolhida e semeada no início dessa década na cena indie paulistana. Tocaram em espaços determinantes e conquistaram um público muito ativo, numa época em que as redes sociais ainda não tinham essa dinâmica de eventos e tudo mais. E mesmo assim vocês faziam a coisa acontecer. Como sentem que se deu essa primeira fase da banda? Quais eram as principais motivações de vocês na época?

EB: Quando o Bazar Pamplona surgiu, por volta de 2005, a única maneira de divulgarmos nossa música era pelo site da TramaVirtual. Não havia Twitter, Facebook e nem Instagram. Não existia Spotify e não era comum subir música no YouTube. Tínhamos apenas uma página no Orkut pra divulgar as atividades da banda. Essas ferramentas parecem muito distantes hoje, porque tudo mudou muito rápido. Era realmente muito mais difícil chegar até as pessoas. Mas acho que a banda sempre se pautou pela diversão que é tocar, fazer música e gravar. Não tínhamos estrutura para fazer discos nem apoio financeiro, por isso as coisas andavam muito devagar nessa primeira fase. Mesmo assim, continuamos, porque é o que a gente gosta de fazer. Nosso terceiro disco, que será lançado nos próximos meses, foi bancado por meio de um financiamento coletivo. Foram quase 300 pessoas que ajudaram a fazê-lo. Algo impensável naquela época. Continuamos como uma banda independente, mas agora com muito mais ferramentas.

Seis anos de hiato para uma banda que tava numa constante boa é um tempo considerável de pausa. Quais foram os principais motivos que levaram a Bazar a dar esse tempo? Alguns de vocês seguiram na música e produzindo nesse intervalo?

EB: Em 2012, a gente lançou o segundo disco, mas a coisa deu uma esfriada logo na sequência, porque alguns integrantes passaram um tempo fora do país. A banda não acabou nesses últimos anos. Apesar de não termos gravado discos, continuávamos ensaiando e tocando esporadicamente. Em 2015, lançamos dois singles (com videoclipes): “Existe Um Filme Triste para Cada Atriz que Não Sorri”, filmado de modo analógico, numa Lomokino, e “Temporada da Gripe”, que estão no YouTube (e no Spotify). Todos da banda têm uma carreira paralela, e num determinado momento isso começou a pesar mais. Mas, quando rolou o episódio do filme alemão, decidimos que era hora de gravar um novo CD e a voltar a tocar.

A história da cineasta alemã é bem interessante, dela ter pedido o uso de uma canção de vocês para usar na trilha de um filme dela. Como que ela descobriu essa faixa? E como ela chegou até vocês? 

EB: A Helene Hegemann lançou um livro aos 17 anos, na Alemanha, e a obra virou um best-seller. Em 2014, ela veio ao Brasil dar palestras sobre o livro, que ganhou tradução para o português (“Axolotle Atropelado”). Nunca falamos com ela, mas a produção do filme nos contou a história. Quando visitava Búzios, no Rio, a passeio, ela ouviu nossa música no rádio, no restaurante de um hotel. Tocou numa rádio virtual. Ela perguntou o nome da música para a garçonete, que descobriu o que era e passou os detalhes pra ela. A Helene adaptou o livro para o cinema e decidiu usar nossa música no filme Axolotl Overkill, que foi premiado no festival Sundance, nos EUA. Para achar os autores da música, a produção do filme na Alemanha entrou em contato com a Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes), que nos colocou em contato. Ficamos surpresos (e contentes) com o fato. No filme, duas alemãs dirigem pelas ruas de Berlim ouvindo e cantando Bazar Pamplona no carro. É surreal.

“Dias Gordos” e “Bom Mesmo é Ouvir um Riff dos Stones” foram os dois novos singles que a banda lançou nos últimos meses. E os dois com clipes. Por que lançar single mais clipe? Saudades de produzir em audiovisual também ou foi uma estratégia de divulgação? Podem contar mais sobre a concepção de cada clipe?

EB: A gente lançou “Riff dos Stones” pra chamar atenção para a campanha de financiamento coletivo que estávamos fazendo. Conseguimos bater a meta e isso nos ajudou. O clipe foi feito pelo Bruno Graziano, um amigo cineasta muito talentoso. Ele filmou com o pessoal da Controle Remoto Filmes um dos nossos primeiros clipes, da música “O Gringo”, alguns anos atrás, em Santos. Sempre gostamos do trabalho dele. A ideia foi gravar num bloco de Carnaval em São Paulo, porque tinha a ver com a letra da música. Já em “Dias Gordos”, usamos imagens de arquivo, que estão em domínio público, e aqueles vídeos do Brasil dos anos 1940 dialogavam muito com o momento atual e com a música. Desde o começo da banda sempre gostamos de fazer vídeos, então foi meio natural. Nossa ideia é fazer um para cada música (são 11 no disco, então muitos ainda estão por vir).

Disco novo, o que podemos esperar a partir desses dois singles? É a mesma banda de seis anos atrás ou teremos novidades herdadas desse hiato?

EB: É a mesma banda. O Rafael Capanema, nosso baixista/tecladista, vive atualmente em Madri, mas mesmo assim participou das gravações quando esteve em São Paulo neste ano. Ele canta a primeira faixa do CD. O disco está bem diferente dos anteriores por um motivo simples: pela primeira vez fizemos um álbum de estúdio. Nos anteriores, as músicas eram criadas nos ensaios e a gente tocava muitas delas várias vezes nos shows antes de registrá-las. Desta vez, os arranjos foram surgindo durante as gravações. Ou seja, nunca tínhamos tocamos nenhuma daquelas músicas antes de o disco ficar pronto. Estamos fazendo isso apenas agora, nos ensaios. Isso faz muita diferença e muda muito a sonoridade do CD. Também contamos com arranjo de metais e gravamos pianos e violoncelos em várias faixas.  Está bem diferente dos anteriores, e acho que para melhor.

Como que rolou o processo de gravação do novo trabalho? Fiquei sabendo que parte dele foi produzida em Fortaleza, certo? Queria saber mais dos colaboradores deste novo trabalho e em termos de sonoridade, sentem que mudou muito dos anteriores?

EB: A gente gravou o disco todo num estúdio de um amigo, o Fábio Massa. Fica nos fundos da casa dele, na zona norte de São Paulo. Teve um momento que ele não aguentava ver mais a gente lá. Ele saía de casa para algum compromisso e deixava a gente sozinho no estúdio. Às vezes, voltava de madrugada e lá estava a banda gravando. Quase deixamos ele louco (e o pai dele também). O Fábio é um dos grandes responsáveis por esse CD, por essa ajuda, que foi essencial, e por ter dado pitacos em muitas músicas. Depois que terminamos as gravações, o disco foi mixado em Fortaleza, no Totem, o estúdio do Yuri Kalil, do Cidadão Instigado, banda que a gente gosta muito. O João Victor, guitarrista do Bazar que produziu o CD, foi até lá acompanhar parte as mixagens. Foi importante ter alguém de fora mexendo nas músicas, ainda mais alguém cujo trabalho a gente admira há muito tempo. Depois, foi masterizado no Red Traxx Mastering, um estúdio que fica em Miami, nos EUA. Todo esse processo foi diferente pra gente. Pela primeira vez a gente teve total controle de todas as etapas do disco, graças ao Fábio e aos apoiadores do projeto de financiamento coletivo, e isso com certeza já deixa o resultado bem diferente dos anteriores. Tivemos participações de vários músicos, como o Tony Berchmans (pianista que tem um projeto maravilhoso chamado Cinepiano), o Raphael Evangelista (violoncelo), a Hilda Maria (cantora talentosíssima) e o João Erbetta (nosso guitar hero que tocou em todos os nossos discos).

SERVIÇOS

Show do Bazar Pamplona em São Paulo
Data: sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
Horário: 21h
Local: Casa do Mancha – Rua Felipe Alcaçova, s/n – Vila Madalena
Entrada: R$ 20

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